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Edição de 1975 das Publicações Dom Quixote
Tradução de Almeida Faria
Em maio de 1975, em pleno período revolucionário, quando Almeida Faria deu à estampa a primeira antologia deste enormíssimo poeta alemão, não precisou de mais do que uma frase para deixar clara a urgência que serviu como princípio orientador da sua escolha: «Porque a política é a sua obsessão dominante e porque hoje em Portugal não há a poesia política que seria precisa, fiz a presente selecção, cujo título é de minha responsabilidade.» Chamou-lhes Poemas Políticos. Em sinal do seu compromisso e cumplicidade com este gesto do escritor português, Enzensberger deslocou-se a Portugal, dinamizando nesse ‘Verão quente’ vários encontros com escritores e intelectuais portugueses.
Vale a pena ressalvar alguns dos versos que comparecem naquela antologia, e que ainda hoje, quando mesmo as maiores ilusões democráticas, por norma, se servem bem frias, nos aplicam verdadeiros murros no estômago: «digam as orações ao telefone, mas cortem o fio:/ ou embrulhem-nas num lenço cheio de migalhas de pão/ para os peixes estuporados no charco.// que o bispo fique em casa e se embebede:/ dêem-lhe um barrilito de rum,/ terá sede depois de pregar.» Numa poesia que escorraça ademanes e adornos, virando-se para um arsenal a que não faltam terríveis doses de ironia, Enzensberger atira-se ao «padrão-ouro para o rearmamento poético», e recorre muitas vezes a imagens e termos tidos como indignos, a materiais rudes, pobres, até sujos, aos «vocábulos sem aroma (…) impróprios para a espuma doirada da cantilena,/ impróprios para trovadores». Incita a que se vá até ao fim com o seu tempo e não apenas simular cobardia. Depois, há o célebre poema que começa por dizer aos miúdos do 7.º ano: «não leias odes, meu filho, lê os horários»…. É uma espécie de curso intensivo em poucos versos sobre a frieza estratégia que exigem estes tempos: «torna-te hábil na pequena traição,/ na diária suja salvação». E conclui: «raiva e paciência são necessárias,/ para soprar nos pulmões do poder/ o fino pó mortal, moído/ por aqueles que aprenderam muito,/ que são exactos, por ti.»
Diogo Vaz Pinto