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Edição Hiena de 1990
Tradução de Cristina Terra da Motta e José Miranda Justo
Publicado em 1919 no momento em que o movimento dada afirmava a sua presença em Paris, o livro é uma das expressões mais consequentes da recusa dadaísta da linguagem como instrumento de comunicação ou expressão, recusa que o próprio título enuncia sem cerimónia.
Os poemas não progridem nem argumentam. Avançam por justaposição de imagens e fragmentos sem relação causal ou sentimental entre si, construídos de forma a bloquear qualquer leitura que procure coerência ou profundidade. Não se trata de revelar o sem-sentido do mundo, gesto que pressupõe ainda uma relação crítica com o sentido. Trata-se de uma sabotagem mais frontal: a linguagem é usada contra si própria, esvaziada da função que a define.
Nisto, Picabia é fiel ao impulso central do Dada, que não é filosófico mas operativo. O livro não propõe uma visão do mundo nem uma poética alternativa. É antes um acto, datado e deliberado, de demolição das convenções que sustentam a literatura como instituição.