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Edição de 1980 do Instituto de Estudos Para o Desenvolvimento
O Reguengo do Fetal, apresentado aqui com minúcia, quase à maneira do etnólogo, ultrapassa bem longe a análise duma localidade. E no espaço social, antigo e original, da freguesia que nós penetramos. Devemos sem dúvida evitar observá-lo como um ideal-tipo. Uma freguesia observada com outros métodos e a partir de outras hipóteses diferentes revelaria outros comportamentos e talvez significações não exprimidas nesta análise.
No entanto, estão aqui descritas as forças numerosas e multiformes que dividem e unem simultaneamente uma colectividade. Forças internas de solidariedade e de antagonismos, forças vindas do exterior que nunca deixam insensíveis o grupo local, porque este tem a capacidade de domesticar agressões e estimulações estrangeiras.
Reconhecem-se com facilidade as violências que provocam as incessantes explosões. Paixões secretas, interesses nem sempre confessados, tradições portadoras duma identidade social, tudo está posto em acção e sempre para desunir. A mobilidade geográfica é disso um índice, um dos efeitos, uma das causas. A recente revolução de 1975, que se introduziu aqui quase sub-repticiamente, é objecto duma atenção particular do autor.
A esta violência importada do exterior, para resolver problemas que não eram todos seus, Reguengo do Fetal reagiu pela violência. Captadas ao vivo, um recuo histórico permitirá talvez elaborar outras interpretações, formular outras hipóteses de explicação. Indubitavelmente, estas rupturas incessantemente presentes não dissociam em profundidade, segundo parece, a freguesia. As violências que não são redutíveis a oposições entre classes sociais não desfazem a comunidade. Esta, pelo contrário, vive-as, assume-as, ultrapassa-as, para exprimir de novo a sua unidade, para operar as suas transformações.