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Se os historiadores começam a falar da família e da vida doméstica é porque os problemas da vida privada invadiram a atualidade. Os deveres e direitos do marido e da mulher, a autoridade de ambos sobre os filhos. as possibilidades de divórcio, de contraceção ou de aborto tornaram-se assuntos de Estado. De que modo um historiador atento aos conflitos políticos do seu tempo poderia secundarizar a vida privada dos nossos antepassados?
Em Famílias de Jean-Louis Flandrin estuda as diferenças entre as famílias dos séculos XVI a XVIII e as famílias atuais. Que se sabe de concreto sobre as relações entre o casal, a atitude dos pais com os filhos, acerca do papel da família na educação?
Investigações modificaram a visão de sociólogos e juristas a propósito do núcleo familiar do «Antigo Regime». Por isso torna-se necessária uma síntese sobre a temática. De conclusões certamente provisórias, este trabalho revela-se uma etapa indispensável para o estudo da vida íntima da sociedade de outrora e para que possamos compreender melhor também os nossos comportamentos.
O conceito "Famílias: Parentesco, Casa e Sexualidade na Sociedade Antiga" remete à obra fundamental do historiador Jean-Louis Flandrin. A análise histórica demonstra que a família na Antiguidade não era estática, estruturando-se como um modelo social, político e económico centrado no patriarcado, onde a reprodução, o afeto e a sexualidade estavam subordinados à manutenção da linhagem.
A dinâmica familiar na Antiguidade pode ser compreendida através de três pilares centrais:
1. Parentesco e Estrutura Política
Roma Antiga: O conceito de família ia muito além da biologia; englobava todos os indivíduos (incluindo escravos) e bens patrimoniais sob a alçada do pater famílias. O parentesco era crucial para a herança e a perpetuação do nome e dos cultos domésticos.
Redes de Poder: O parentesco servia como instrumento de alianças políticas e de controlo de terras, definindo o lugar de cada indivíduo na estratificação social.
2. A Casa (Domus / Oikos)
Economia Doméstica: A casa era a unidade de produção básica, não apenas um local de refúgio. O espaço doméstico estava rigorosamente dividido entre as áreas masculinas (andron na Grécia) e femininas (gineceu).
Papel da Mulher: Na sua maioria, as mulheres estavam confinadas ao espaço doméstico e sob a tutela perpétua de um homem, com o casamento arranjado a servir os interesses das famílias aliadas.
3. Sexualidade e Reprodução
Controlo Social: A sexualidade era regulada não por noções de pecado, mas pela preservação da honra da linhagem e da legitimidade dos herdeiros.
Masculinidade e Poder: A moralidade sexual variava. Em Roma e na Grécia Antiga, por exemplo, a elite masculina gozava de grande liberdade, enquanto a fidelidade e a castidade eram exigidas rigorosamente às mulheres para garantir a pureza da linha de sucessão.
Titulo: Famílias (Parentesco, Casa e Sexualidade na Sociedade Antiga)
Autor: Jean-Louis Flandrin
Capa: José Antunes
Tradução. M. F. Gonçalves de Azevedo
Editora: Editorial Estampa
Páginas: 291